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Fechamos, pessoal. Quer dizer, mudamos de
meio. Pouca gente tem o hábito da leitura na web, afinal, e não estava
dando frutos. E daqui a pouco começam minhas aulas e eu vou ter pouco
tempo livre pra fazer as atualizações e tal, que são um saco...
então é o seguinte: vou começar a mandar o "aline" por
mail. Assim vai ser muito mais fácil e você pode ler desconectado,
quando tiver um tempo livro, sem stress. Se você quer receber o "aline"
por mail, peça pra mim agora!
#4
Na semana seguinte ao drama do "eu descobri que a minha melhor amiga cheirou na festa" (mesmo que no fim das contas ela não tenha cheirado) foi bastante traumática. Era difícil entender como, mas as notícias parece que eram levadas pelo vento naquela faculdade. Era uma faculdade de comunicação, afinal, e isso parece explicar tudo.
Quanto ao nosso relacionamento, andava meio estremecido. As duas cheias de dedo quanto a tocar no tal assunto. E ela ainda meio envergonhada (e eu, talvez decepcionada, já não achava muitas coisas em comum entre nós duas).
Mas a Lívia era a Lívia e eu continuava sabendo que por trás daquela aparência existia uma pessoa mais interessante.
Estamos no apartamento dela agora, que ela divide com uma outra menina que veio do interior e faz engenharia elétrica. Atiradas na cama, olhando pro teto e conversando.
- Tava andando ontem no shopping, e nunca achei que shopping era lugar pra azaração, aí de repente chega um carinha meio coroa, mas bem inteiro, até dá pra se dizer que era bonito...
- E ele te levou pro motel e vocês viveram felizes pra sempre.
- Pára, Aline, relaxa! Deixa eu contar a minha história.
- Vai, Li, continua...
- Ele disse assim: sabia que você é louca? E eu pensei: caralho, isso é jeito de chegar numa mulher decente?
- Numa mulher decente não, mas numa menina louca sim.
- Não enche, tá? - ela estica o dedo médio pra mim. - Continuando... eu respondi pra ele: louca por quê? E ele disse: Olha pra você!
- Haha, ele não é o único a dizer isso, é?
- Eu sei que não, mas... bom, naquele dia eu estava mais aparentemente louca que o normal, porque eu queria chocar as pessoas do shopping.
- Você e suas idéias...
- Eu sei que o cara me ofereceu uma carona, disse que podia me levar em casa.
- Por favor, me diz que você não pegou essa carona.
- Caaara, tava um calorão ontem, eu não ia ir até a parada, esperar, depois ter que caminhar três quadras pra chegar em casa... no way! Pensei: por que não?
- Sua mãe nunca falou coisas do tipo "não fale com estranhos", "não aceite balas de estranhos", e , principalmente, "não entre na porra do carro de um estranho"?
- Mamãe está errada sobre a maioria das coisas, então por que devo aceitar seus conselhos?
- Cara, é difícil lidar com você.
- Relaxa, Ali, estou sentada aqui na sua frente, viva.
Ela acende um cigarro.
- Acabei que nem fui direto pra casa. Ele me levou pra conhecer a sua coleção de cd's, já que a mulher e a filha não estavam em casa.
- Meu Deus! - dou um pulo na cadeira - Mulher e filha? Você não tinha falado sobre isso!
- E ele também não, quando soube, já era tarde, estávamos na porta... eu subi, olhei os cd's... aliás, péssimo gosto o daquele cara, Frank Sinatra, Edith Piaf, Jazz... jazz, Aline, Jazz! E eu falando momentos antes sobre o grunge pra ele, ou seja, o cara é uma anta, ele praticamente colaborou com 100% da minha total decepção sobre sua pessoa.
- Total decepção? Por causa do gosto musical?
- Claro!
- Mas ele era um velho, queria que ele curtisse Silverchair?
- Nem tão velho assim, eu te disse, uns 30 e poucos...
- Tá, esquece isso, continua a história.
- Tá. Bom... o cara queria me comer. Era certo, tá ligada? Ele tava louco por mim, Aline. Disse que eu tinha personalidade e não sei mais o que. E disse que eu era muito sexy. Daí foi se chegando todo quando eu tava no sofá.
- E...???
- Eu dei um beijo nele, foi coisa rápida e saí fora.
- Saiu fora como?
- Andando. No fim das contas, não consegui escapar de pegar ônibus pra ir pra casa. Ou seja, tudo isso pra nada.
- Por que não deu pra ele?
- Meu Deus, você é louca, tava toda indignada com a história e agora tá dizendo que eu devia ter transado com o cara!
- Eu não tô dizendo que devia, só tô perguntando porque não fez.
- Por que o cara é um filho da puta! Quer dizer, é gostoso, diz que malha até, mas ele tem uma mulher e uma filha! Como ele pode ficar dando em cima de menininhas no shopping?
- Então porque você beijou ele?
- Por que eu queria deixar ele louco por mim.
- ... ???
- Porque eu quero fazer ele sofrer.
- ... ???
- Você não tá entendendo, Ali. É tipo assim: eu sou uma justiceira, tá ligada?
- Ah, entendi! Você quer sacanear com os caras que sacaneiam as esposas... tipo isso?
- É isso aí. Ele merece sofrer.
- E acha que dando um beijo no coroa ele fica na tua mão?
- Ahãm.
- Que viagem!
- Viagem? Vai nessa, filha... Ele me ligou hoje, sabia?
- Ligou? E você deu seu telefone? Que idiota!
- Dei! Mas antes de saber da filha e da mulher.
- Ele ligou e queria o que?
- Combinar de sair, algo assim.
- E tu disse o que?
- Que eu ia pensar.
- IA PENSAR??? E VOCÊ VAI PENSAR?
- Aline, eu já disse que você coloca muita pressão na minha cabeça?
- Pressão na sua cabeça? Hahaha, essa é nova!
- Mas eu gosto de você - ela pisca o olho - Você é minha amiguinha, a única que me entende.
- Entendo tanto que sei que você vai ver esse cara.
- Não vou, não, relaxa.
- Vai sim. Se você é capaz, então jura que não vai.
- Não posso jurar.
- Ah, viu só?!
- Mas, te digo uma coisa... ele gosta de jazz, cara. E isso diminui a chance dele pela metade.
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